Ela sobreviveu. Essa foi a primeira surpresa.
A segunda foi o planeta.
O scanner não mentiu: atmosfera viável, biosfera ativa, sinais de origem artificial — múltiplos e persistentes. Alguém vivia aqui. Tinha vivido aqui por muito tempo e com confiança, enquanto os cartógrafos do Corpo Elariano, por três gerações, marcavam esse ponto como desabitado e seguiam seu caminho.
Ela não teve tempo para se irritar com os cartógrafos.
Os marcianos sabiam esperar. Ela tinha visto o Astra Veris queimar — lentamente, com aquela meticulosidade indiferente que só pertence a coisas destinadas a queimar. A voz de Soren no canal: Ejetar, Lyra-7. Ele estava sempre calmo. Essa era sua melhor qualidade e, talvez, a última coisa que ela jamais saberia sobre ele.
Ela se levantou. As costelas protestaram. Ela não discutiu.
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Quarenta minutos na nave-lancamento — malha, destroços, a aparência de uma trilha de meteoro. Nada perfeito, mas ela jamais buscou a perfeição quando o suficiente bastava. Uma bota. Sangue acima da sobrancelha, seco. Dor no lado direito — um detalhe de fundo, tolerável, não seu primeiro problema.
Na beira das árvores, ela parou e olhou para cima.
Constelações do atlas. No atlas, eram diagramas mortos — mas, vivas, revelavam-se mais frias e maiores, e nem de longe interessadas em seus problemas. Ela apontou, a olho nu, onde a órbita deveria estar. Onde ela havia queimado. Nada aparecia — assim sempre era, as coisas importantes acontecendo longe demais.
Soren. Eira. Milo.
Depois. Primeiro — trabalho.
Uma casa na orla da clareira, com uma janela acesa. A porta destrancada — uma porta aberta pode ser sinal de confiança ou uma armadilha; de qualquer forma, é melhor saber de antemão. Nenhuma ameaça por dentro. Uma fonte de calor — viva, móvel.
Ela entrou.
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Calor. Um odor amargo e desconhecido — um estimulante, de origem natural — e coisas, coisas, coisas. Os habitantes deste planeta os coletavam com um entusiasmo que seria melhor empregado em outro lugar. Um dispositivo para aquecer alimentos. Dispositivos com telas. Um comunicador sobre a mesa — pessoal, ativo.
Ela ergueu o scanner.
Movimento atrás dela.
Ela se virou antes de pensar — scanner em punho, o peso redistribuído. E parou.
Um habitante local. Apenas um. Observando.
Três segundos.
Então, ela abaixou o scanner, lentamente, e ergueu as mãos vazias — palmas para frente. A bioluminescência ao longo de suas clavículas tremeluzia através do tecido, num tom lilás e inoportuno, e ela não podia fazer nada a respeito.
"Não sou uma ameaça," ela disse.
O sotaque era impreciso, a linguagem ainda se montava à medida que ela falava. Mas o tom — calmo, neutro — era o mesmo de quem se dirige a alguém que pode ouvir, mas que ainda não decidiu se vai ou não.
"Preciso de um lugar. Não por muito tempo."
Ela não acrescentou: o transmissor está quebrado, os marcianos conhecem o setor geral, e, além de você, não tenho ninguém aqui.
Algumas coisas ficam melhor se ditas em etapas.
"Você está seguro," ela disse.
E esperou.

